{"id":72084,"date":"2026-03-10T05:18:56","date_gmt":"2026-03-10T02:18:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.peyzax.com\/?p=72084"},"modified":"2026-03-10T06:02:01","modified_gmt":"2026-03-10T03:02:01","slug":"e-possivel-compreender-o-carater-de-uma-cidade-pelo-seu-som","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.peyzax.com\/pt-br\/e-possivel-compreender-o-carater-de-uma-cidade-pelo-seu-som\/","title":{"rendered":"\u00c9 poss\u00edvel compreender o car\u00e1ter de uma cidade pelo seu som?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No teatro, existe um conceito chamado \u201crabarba\u201d. Ele se refere \u00e0quele ru\u00eddo vazio de multid\u00e3o que vem do fundo. Pois bem, ser\u00e1 que essa rabarba pode, na verdade, ser um dos elementos centrais que formam a identidade das cidades? \u00c9 poss\u00edvel compreender o car\u00e1ter de uma cidade pelo seu som? Uma cidade pode ser lida com o ouvido? N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que o car\u00e1ter de uma cidade n\u00e3o est\u00e1 escondido apenas em sua silhueta, mas tamb\u00e9m em seu som. Neste ensaio, convido os leitores a reler a cidade por meio do ru\u00eddo, do sil\u00eancio, da voz das crian\u00e7as, da \u00e1gua e da multid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo dos anos, quando olhava para as fotografias que tirei em diferentes cidades \u2014 \u00e0s vezes no meio de uma caminhada, \u00e0s vezes no caminho de volta, \u00e0s vezes simplesmente porque eu n\u00e3o conseguia aceitar deixar aquele instante escapar \u2014, se a cidade havia deixado uma marca, o som daquele momento sempre voltava ao meu ouvido&#8230; Isso sempre me levava ao mesmo pensamento: <strong>Acredita-se que uma cidade \u00e9 primeiro vista, mas na verdade ela \u00e9 primeiro ouvida.<\/strong> \u00c0s vezes sob as luzes que lentamente se espalham sobre a noite ao longo da linha da costa, \u00e0s vezes no zumbido que repousa sobre o ombro de uma rua cheia, \u00e0s vezes ainda em uma manh\u00e3 em que a neve suaviza um pouco tudo, a cidade tira dos olhos a tarefa de ler o seu car\u00e1ter e a entrega ao ouvido. Os olhos escolhem muitas coisas de acordo com o seu gosto. O ouvido, por sua vez, aprecia menos o adorno e se deixa enganar muito menos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1300\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.peyzax.com\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/27-haziran-2014-izmir-scaled.jpg\" alt=\"Panorama costeiro de Izmir (27 de junho de 2014)\" class=\"wp-image-72021\" title=\"\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">Panorama costeiro (Izmir &#8211; 27 de junho de 2014)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para conhecer uma cidade, \u00e0s vezes n\u00e3o basta erguer a cabe\u00e7a e olhar para as fachadas; \u00e9 preciso ficar em sil\u00eancio por um instante e escutar. Porque aquilo que chamamos de cidade n\u00e3o \u00e9 feito apenas de pedra, asfalto, \u00e1rvores, edif\u00edcios e vazios. \u00c9 feito tamb\u00e9m da maneira como todas essas coisas conversam entre si. A estrada tem um som, o vento ao tocar a cal\u00e7ada tem um som, a multid\u00e3o tem um ritmo que organiza dentro de si. At\u00e9 o sil\u00eancio tem um som; \u00e0s vezes ele traz paz, \u00e0s vezes inquieta\u00e7\u00e3o, e \u00e0s vezes sugere que a vida p\u00fablica ali se afinou, recuou, come\u00e7ou a se retrair. Pelo som de uma cidade, pode-se ler muito mais do que se imagina sobre aquilo que ela valoriza, sobre quem ela coloca no centro e sobre quem ela deixa nas margens.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"is-style-alert-2 wp-block-paragraph\" style=\"font-size:26px\"><em>Os olhos escolhem muitas coisas de acordo com o seu gosto. O ouvido, por sua vez, aprecia menos o adorno e se deixa enganar muito menos.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A imagem muitas vezes pode ser maquiada. Quando uma pra\u00e7a \u00e9 fotografada de um bom enquadramento, ela pode parecer mais organizada, mais ampla e mais acolhedora do que realmente \u00e9. Mas o som n\u00e3o se deixa polir com a mesma facilidade. <strong>Onde o barulho dos motores domina, o pedestre fica em segundo plano. Onde buzinas, freios, escapamentos e uma sensa\u00e7\u00e3o constante de pressa s\u00e3o ouvidos o tempo todo, essa cidade foi constru\u00edda em torno da velocidade; n\u00e3o para as pessoas, mas para o fluxo.<\/strong> Em contrapartida, ali onde passos, encontros breves, o riso distante das crian\u00e7as, a \u00e1gua, os p\u00e1ssaros ou uma brisa leve podem existir sem esmagar uns aos outros, come\u00e7a a surgir uma outra ideia de cidade. Ali a vida n\u00e3o apenas continua; ali, em alguma medida, ela \u00e9 vivida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As cidades costeiras s\u00e3o especialmente interessantes nesse sentido. As cidades constru\u00eddas \u00e0 beira-mar costumam ser descritas apenas por suas paisagens. No entanto, a verdadeira hist\u00f3ria geralmente est\u00e1 escondida em camadas de som. A rela\u00e7\u00e3o entre a onda e o piso duro, o leve tra\u00e7o met\u00e1lico deixado pela roda de uma bicicleta no cal\u00e7ad\u00e3o, as meias conversas de quem est\u00e1 sentado nos bancos, o ritmo desacelerado da caminhada alguns passos adiante&#8230; Tudo isso revela o car\u00e1ter p\u00fablico daquela cidade. Existe uma diferen\u00e7a clara entre o som de uma pessoa caminhando \u00e0 beira da \u00e1gua e o som de um ve\u00edculo que passa em alta velocidade: um se instala na cidade, o outro a corta ao meio. Por mais movimentada que seja uma faixa costeira, se essa multid\u00e3o consegue estabelecer um equil\u00edbrio ac\u00fastico sem sufocar a si mesma, ent\u00e3o a vida p\u00fablica ali talvez n\u00e3o tenha sido formada de modo grosseiro, mas de modo maduro.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"1300\" height=\"732\" src=\"https:\/\/www.peyzax.com\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/21-temmuz-2025-samsun-scaled.jpg\" alt=\"Planejamento costeiro (Samsun - 21 de julho de 2025)\" class=\"wp-image-72023\" title=\"\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">Planejamento costeiro (Samsun &#8211; 21 de julho de 2025)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"1300\" height=\"732\" src=\"https:\/\/www.peyzax.com\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/15-haziran-2025-eskisehir.jpg\" alt=\"Planejamento da margem do Porsuk (Eski\u015fehir - 15 de junho de 2025)\" class=\"wp-image-72025\" title=\"\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">Planejamento da margem do Porsuk (Eski\u015fehir &#8211; 15 de junho de 2025)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As ruas cheias, por sua vez, revelam um outro rosto da cidade. Quando se entra em um grande eixo de pedestres, a primeira coisa que normalmente se percebe n\u00e3o \u00e9 a arquitetura, mas a densidade. E essa densidade tamb\u00e9m tem o seu pr\u00f3prio som. Os passos se sobrep\u00f5em, o chamado distante de um vendedor se destaca por um instante, as conversas diante das vitrines se misturam ao fluxo, o som dos trilhos ou o atrito dos pneus tra\u00e7a uma linha fina por entre tudo isso. Em lugares assim, a cidade se torna um pouco mais an\u00f4nima. A pessoa se torna invis\u00edvel dentro da multid\u00e3o e, ao mesmo tempo, passa a pertencer a ela. Talvez essa seja uma das contradi\u00e7\u00f5es mais antigas da grande cidade: <strong>A multid\u00e3o d\u00e1 \u00e0 pessoa tanto solid\u00e3o quanto pertencimento. Pelo som, a cidade tanto o puxa para dentro quanto deixa em voc\u00ea um certo cansa\u00e7o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1300\" height=\"730\" src=\"https:\/\/www.peyzax.com\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/2-KASIM-2014-ISTIKLAL-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-72027\" title=\"\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">Avenida Istiklal (Istambul &#8211; 2 de novembro de 2014)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"is-style-alert-2 has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong><em>O car\u00e1ter de uma cidade n\u00e3o est\u00e1 escondido apenas na forma como ela aparece, mas tamb\u00e9m naquilo que ela obriga os seus habitantes a ouvir.<\/em><\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Feiras, bazares e espa\u00e7os comerciais semiabertos tornam muito aud\u00edvel a espinha dorsal social de uma cidade. Ali o som \u00e9 mais \u00e1spero, mas tamb\u00e9m mais vivo. O som da pechincha, os chamados, o ru\u00eddo das sacolas, o som do ch\u00e3o molhado sob os p\u00e9s fazem as camadas sociais da vida cotidiana ro\u00e7arem umas nas outras sob o mesmo teto. Nesses lugares, a cidade n\u00e3o \u00e9 est\u00e9ril; talvez seja um pouco cansativa, mas \u00e9 aut\u00eantica. Porque o que se ouve ali n\u00e3o \u00e9 a vers\u00e3o arrumada da vida, mas algo pr\u00f3ximo de sua forma bruta. \u00c0s vezes, o car\u00e1ter de uma cidade \u00e9 compreendido com mais clareza justamente ali: onde ela n\u00e3o \u00e9 perfeita, onde relaxa um pouco o controle, onde permite que o cotidiano componha a sua pr\u00f3pria m\u00fasica.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1300\" height=\"975\" src=\"https:\/\/www.peyzax.com\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/9-ocak-2018-bartin-scaled.jpg\" alt=\"Mercado das mulheres (Bart\u0131n - 9 de janeiro de 2018)\" class=\"wp-image-72029\" title=\"\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">Mercado das mulheres (Bart\u0131n &#8211; 9 de janeiro de 2018)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1300\" height=\"730\" src=\"https:\/\/www.peyzax.com\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/DSC07123-scaled.jpg\" alt=\"\u00c1rea de mercado (K\u0131r\u015fehir - 18 de agosto de 2014)\" class=\"wp-image-72031\" title=\"\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">\u00c1rea de mercado (K\u0131r\u015fehir &#8211; 18 de agosto de 2014)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O som da juventude em uma cidade tamb\u00e9m \u00e9 especialmente importante. Porque a juventude n\u00e3o \u00e9 apenas usu\u00e1ria do espa\u00e7o p\u00fablico; ela tamb\u00e9m \u00e9 uma for\u00e7a social que lhe d\u00e1 ritmo. Pistas de skate, \u00e1reas para patins, cantos de muro, degraus, corrim\u00e3os, superf\u00edcies vazias de concreto&#8230; Lugares que o olhar adulto muitas vezes v\u00ea como espa\u00e7os residuais podem se transformar, para os jovens, nos palcos mais vivos da cidade. O som das rodas, o riso, aquele breve sil\u00eancio entre a tentativa e a queda, o ritmo que um grupo de amigos cria entre si&#8230; Tudo isso pode parecer desordenado, mas na verdade constitui uma declara\u00e7\u00e3o ac\u00fastica do direito de existir na cidade. Se o som da juventude \u00e9 excessivamente reprimido em uma cidade, essa cidade pode at\u00e9 ser organizada, mas tamb\u00e9m \u00e9 um pouco velha. Um pouco ruidosos, um pouco dispersos, \u00e0s vezes cheios de ecos met\u00e1licos, esses sons mostram que a vida p\u00fablica ali ainda est\u00e1 aberta.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1300\" height=\"732\" src=\"https:\/\/www.peyzax.com\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/27-nisan-2025-ankara-scaled.jpg\" alt=\"Jardim Nacional da Capital (Ankara - 27 de abril de 2025)\" class=\"wp-image-72033\" title=\"\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">Jardim Nacional da Capital (Ankara &#8211; 27 de abril de 2025)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A voz das crian\u00e7as tamb\u00e9m \u00e9 decisiva, embora seja um sinal mais fr\u00e1gil. Se em uma cidade n\u00e3o se ouvem crian\u00e7as, isso n\u00e3o significa apenas que elas est\u00e3o em casa. Talvez a rua j\u00e1 n\u00e3o seja segura para elas. Talvez a velocidade tenha aumentado demais. Talvez os adultos tenham ocupado o espa\u00e7o p\u00fablico de tal forma que a crian\u00e7a tenha sido comprimida em pequenas \u00e1reas delimitadas. Ainda assim, a voz das crian\u00e7as \u00e9 um dos sinais de quanto uma cidade permanece aberta ao futuro. Porque <strong>a voz das crian\u00e7as \u00e9 imprevista, um pouco espantada, um pouco transbordante; e justamente por isso \u00e9 uma prova poderosa de que o espa\u00e7o p\u00fablico est\u00e1 vivo. \u00c0 medida que a cidade \u00e9 constru\u00edda para a passagem sem atrito dos adultos, ela perde a sua voz; ou melhor, se reduz a um \u00fanico som: o som de um sistema que funciona, mas n\u00e3o vive.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas cidades hist\u00f3ricas, essa quest\u00e3o se torna ainda mais estratificada. H\u00e1 lugares em que o som da \u00e1gua e a buzina de uma balsa, as gaivotas e a multid\u00e3o humana, o chamado \u00e0 ora\u00e7\u00e3o e o ru\u00eddo do motor, a ladeira e a margem coexistem dentro de uma mesma textura ac\u00fastica. Essas cidades n\u00e3o s\u00e3o apenas grandes; s\u00e3o polif\u00f4nicas. E essa polifonia nem sempre significa harmonia. \u00c0s vezes significa choque, \u00e0s vezes sobreposi\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes ainda o abafamento de um som pelo outro. Mesmo assim, essa estrutura estratificada mant\u00e9m viva a mem\u00f3ria da cidade. Porque a hist\u00f3ria n\u00e3o continua apenas nos edif\u00edcios de pedra; ela continua tamb\u00e9m nos regimes sonoros. O som de uma cidade portu\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 o mesmo de uma cidade de estepe. O som de um centro comercial n\u00e3o carrega o mesmo peso que o de uma cidade de fronteira.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1300\" height=\"730\" src=\"https:\/\/www.peyzax.com\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/2-KASIM-2014-ISTANBUL-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-72035\" title=\"\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">2 de novembro de 2014 Istambul<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando chega a noite, o som das cidades muda, mas n\u00e3o desaparece. Ali\u00e1s, algumas cidades revelam a sua verdadeira identidade justamente \u00e0 noite. Vistas de cima, as luzes produzem primeiro uma sensa\u00e7\u00e3o de sil\u00eancio; no entanto, esse sil\u00eancio \u00e9 enganoso. Cada luz carrega uma vida interior. O zumbido de uma estrada invis\u00edvel ao longe, as conversas que sobem de uma rua lateral, os sons mec\u00e2nicos vindos do porto, os movimentos de uma cidade inclinada que se dobra sobre si mesma&#8230; A noite n\u00e3o reduz o som; ela o torna invis\u00edvel. Talvez por isso, quando olhamos para cidades noturnas, nosso ouvido trabalhe um pouco mais com a imagina\u00e7\u00e3o. Olhamos para as luzes, mas na verdade pensamos naquilo que poder\u00edamos estar ouvindo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1300\" height=\"730\" src=\"https:\/\/www.peyzax.com\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/1-EYLUL-2014-TRABZON-scaled.jpg\" alt=\"1 de setembro de 2014 vista noturna de Trabzon\" class=\"wp-image-72037\" title=\"\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">1 de setembro de 2014 Trabzon<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 nas cidades de inverno, o som assume com a esta\u00e7\u00e3o um car\u00e1ter completamente diferente. Quando neva, a cidade deixa subitamente de ser a mesma cidade. O eco das superf\u00edcies duras amolece, o som das rodas fica mais pesado, a sensa\u00e7\u00e3o de dist\u00e2ncia muda, e a pegada e o passo quase se aproximam. A neve tamb\u00e9m cobre a ac\u00fastica. Por isso, as cidades de inverno nem sempre soam mais calmas; muitas vezes soam mais recolhidas. Elas puxam o ser humano de fora para dentro, do p\u00fablico para o mais privado. Mas \u00e9 justamente por isso que o som de uma cidade sob a neve \u00e9 t\u00e3o instrutivo. Porque ent\u00e3o fica mais claro quais sons continuam vivos: o raspar de uma p\u00e1, um motor distante, conversas curtas saindo de casacos grossos, o ritmo de algu\u00e9m abrindo caminho na neve. O inverno filtra os sons desnecess\u00e1rios da cidade e revela a sua espinha dorsal.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1300\" height=\"732\" src=\"https:\/\/www.peyzax.com\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/23-mart-2024-erzurum-scaled.jpg\" alt=\"23 de mar\u00e7o de 2024 rua nevada em Erzurum\" class=\"wp-image-72041\" title=\"\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">23 de mar\u00e7o de 2024 Erzurum<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a cidade n\u00e3o \u00e9 formada apenas por sons naturais e sons cotidianos; tamb\u00e9m existem sons simb\u00f3licos. A rela\u00e7\u00e3o da bandeira com o vento, os momentos cerimoniais de uma pra\u00e7a, o sil\u00eancio em torno de um monumento, os equivalentes ac\u00fasticos da mem\u00f3ria hist\u00f3rica&#8230; Esses sons s\u00e3o ouvidos com menos frequ\u00eancia, mas penetram mais fundo. Uma cidade pode \u00e0s vezes tornar-se o som de uma na\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes o som de uma mem\u00f3ria compartilhada, \u00e0s vezes o som de um sentimento carregado por muito tempo. Por isso, compreender uma cidade significa compreender n\u00e3o apenas quais sons est\u00e3o presentes nela, mas tamb\u00e9m quais sons recuam com respeito. O sil\u00eancio, tanto quanto o som, \u00e9 culturalmente constru\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1300\" height=\"730\" src=\"https:\/\/www.peyzax.com\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/11-eylul-2014-kastamonu-scaled.jpg\" alt=\"11 de setembro de 2014 Kastamonu\" class=\"wp-image-72043\" title=\"\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">11 de setembro de 2014 Kastamonu<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao falar do som das cidades, \u00e9 dif\u00edcil ignorar a quest\u00e3o de classe. Porque nem todo bairro produz o mesmo som, ou melhor, nem todo bairro est\u00e1 exposto ao mesmo som. Em \u00e1reas mais abastadas, pode haver um sil\u00eancio filtrado, uma ac\u00fastica suavizada pelas \u00e1rvores e uma ordem de tr\u00e2nsito controlada. Em bairros mais fr\u00e1geis, ao contr\u00e1rio, convivem alta velocidade, superf\u00edcies duras, tr\u00e2nsito denso, infraestrutura irregular e ru\u00eddo mec\u00e2nico. O problema aqui n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de decib\u00e9is. O problema \u00e9 quem \u00e9 obrigado a viver constantemente com quais sons. <strong>Justi\u00e7a espacial tamb\u00e9m \u00e9, em parte, justi\u00e7a ac\u00fastica.<\/strong> O que uma crian\u00e7a ouve ao abrir a janela, entre quais sons uma pessoa idosa se senta em um banco, se um estudante consegue ou n\u00e3o ouvir os pr\u00f3prios pensamentos enquanto caminha \u2014 tudo isso faz parte dos componentes invis\u00edveis do direito \u00e0 cidade.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"is-style-alert-2 has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong><em>Cidades constru\u00eddas para os olhos chamam aten\u00e7\u00e3o.<\/em><\/strong> <strong><em>Cidades pensadas para o ouvido permanecem na mem\u00f3ria.<\/em><\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algumas cidades acordam com a feira da manh\u00e3, outras com as balsas, outras com o bonde, outras com o pesado zumbido do tr\u00e2nsito. Em algumas, ao fim da tarde, a faixa costeira mistura as vozes humanas com a \u00e1gua; em outras, a vida se recolhe quando a neve come\u00e7a a cair. Ainda assim, em todos os casos permanece importante a mesma pergunta: esses sons esmagam uns aos outros ou conseguem formar juntos um ritmo de vida? Uma boa cidade talvez n\u00e3o seja uma cidade completamente silenciosa. Uma cidade inteiramente silenciosa costuma ser ou abandonada ou excessivamente controlada. Mais habit\u00e1vel \u00e9 aquela cidade em que os sons certos conseguem existir sem sufocar uns aos outros. Uma cidade em que a voz das crian\u00e7as n\u00e3o \u00e9 abafada por buzinas, em que o ritmo da caminhada n\u00e3o \u00e9 quebrado pelos motores, em que a \u00e1gua pode realmente ser ouvida, em que o vento pode ser sentido n\u00e3o apenas em sua aspereza, mas tamb\u00e9m em sua presen\u00e7a.<\/p>\n\n\n<div class=\"uckan-card\"><button type=\"text\" aria-label=\"Kapat\"><i class=\"gi gi-times\"><\/i><\/button><\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No fim, parece que a quest\u00e3o talvez se resuma a isto: <strong>O car\u00e1ter de uma cidade n\u00e3o est\u00e1 escondido apenas na forma como ela aparece, mas tamb\u00e9m naquilo que ela obriga os seus habitantes a ouvir.<\/strong> Porque o som carrega os rastros do poder, do cotidiano, da mem\u00f3ria e do cansa\u00e7o. Algumas cidades permanecem no ouvido como uma frase imperativa cansativa; outras continuam circulando na mente como uma melodia por muito tempo. O bom desenho talvez consista um pouco nisso: reduzir aquilo que n\u00e3o deveria ser ouvido e abrir espa\u00e7o para aquilo que merece soar. <strong>Cidades constru\u00eddas para os olhos chamam aten\u00e7\u00e3o. Cidades pensadas tamb\u00e9m para o ouvido permanecem na mem\u00f3ria.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No teatro, existe um conceito chamado \u201crabarba\u201d. Ele se refere \u00e0quele ru\u00eddo vazio de multid\u00e3o que vem do fundo. 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