{"id":72204,"date":"2026-02-10T22:23:51","date_gmt":"2026-02-10T19:23:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.peyzax.com\/?p=72204"},"modified":"2026-03-18T02:56:04","modified_gmt":"2026-03-17T23:56:04","slug":"o-brincar-perdido-entre-o-concreto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.peyzax.com\/pt-br\/o-brincar-perdido-entre-o-concreto\/","title":{"rendered":"O brincar perdido entre o concreto"},"content":{"rendered":"\n<p>Estamos entre blocos imensos de concreto. Entre fachadas altas, brilhantes, lisas\u2026 \u00c0s vezes, at\u00e9 a voz das crian\u00e7as se perde sem nem chegar a ecoar; porque j\u00e1 n\u00e3o existe vazio suficiente para carregar esse eco. Houve um tempo em que pens\u00e1vamos que aquilo que cham\u00e1vamos de \u201ccidade\u201d era a rua, e que aquilo que cham\u00e1vamos de rua era a pr\u00f3pria vida. Agora, a cidade parece ser apenas um corredor por onde passamos; um esquema de circula\u00e7\u00e3o conectado a estacionamentos fechados, elevadores e port\u00f5es de seguran\u00e7a. Onde ficam as crian\u00e7as nesse esquema? Na ponta do mapa, na margem, em algum canto \u201cconsiderado adequado\u201d\u2026 E tamb\u00e9m, claro, nas placas: \u201cparque infantil\u201d. Como falamos isso com facilidade. Parque. Brincadeira. Crian\u00e7a. Tr\u00eas palavras e a consci\u00eancia parece acalmada.<\/p>\n\n\n\n<p>Quase n\u00e3o nos restou verde. E, se restou, sobrou um tantinho no canto do olhar. Se restou, ficou num vaso diante da janela. \u00c0s vezes ficou na maquiagem do paisagismo de um condom\u00ednio: duas faixas de grama, tr\u00eas \u00e1rvores pequenas, no meio uma oliveira \u201cnobre\u201d&#8230; Um arranjo que parece \u201cbem cuidado\u201d, mas que, ao toque, d\u00e1 quase uma sensa\u00e7\u00e3o de pl\u00e1stico. A possibilidade de a crian\u00e7a tocar a terra, conhecer a lama, entortar um galho sem quebr\u00e1-lo, sentir o peso das pedras na m\u00e3o, parar \u00e0 beira de um buraco e dizer \u201cse encher de \u00e1gua, isso vira um lago\u201d&#8230; Tudo isso virou luxo urbano. E aquilo que chamo de luxo \u00e9, na verdade, a condi\u00e7\u00e3o mais b\u00e1sica do humano: <strong>tocar, descobrir, experimentar, cair, levantar<\/strong>. Para a crian\u00e7a, brincar \u00e9 justamente isso. N\u00f3s, por\u00e9m, esterilizamos a brincadeira. Embalamos a brincadeira. Entregamos a brincadeira como se fosse um produto com certificado de garantia (ver Figura 1).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1300\" height=\"732\" src=\"https:\/\/www.peyzax.com\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/20240323_123448-3-scaled.jpg\" alt=\"23 de mar\u00e7o de 2024 - \u00c1rea de brincadeira infantil no inverno \/ Parque Muhsin Yaz\u0131c\u0131o\u011flu - Erzurum\" class=\"wp-image-71620\" title=\"\"><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Figura 1.<\/strong> \u00c1rea de brincadeira infantil no inverno &#8211; Parque Muhsin Yaz\u0131c\u0131o\u011flu \/ Erzurum (23 de mar\u00e7o de 2024)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Pior ainda: \u00e0 medida que reduzimos as \u00e1reas verdes, estreitamos tamb\u00e9m o brincar. As cidades cresceram, a inf\u00e2ncia encolheu. Eu poderia dizer essa frase como se fosse de um poeta, mas a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 poesia; a quest\u00e3o \u00e9 uma escolha que repetimos todos os dias. Projetos enormes, avenidas enormes, cruzamentos enormes. Projetos \u201cloucos\u201d, como se todos n\u00f3s tiv\u00e9ssemos enlouquecido no frenesi do capitalismo&#8230; O lugar reservado \u00e0 crian\u00e7a, por sua vez, costuma ser o que sobra da cidade. Encontra-se um vazio no plano; colocam-se ali dois balan\u00e7os, um escorregador e um piso colorido&#8230; Depois dizem: \u201cfizemos isso para as crian\u00e7as\u201d. E vendem isso como projeto de prest\u00edgio. O direito da crian\u00e7a vale apenas o que sobra do nosso conforto? Enquanto os metros quadrados mais caros da cidade s\u00e3o destinados aos carros, aos outdoors, \u00e0s vitrines, o espa\u00e7o que cabe \u00e0s crian\u00e7as costuma ser um lugar sem sombra, sem prote\u00e7\u00e3o contra o vento, que congela no inverno e castiga no ver\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A criatividade precisa de incerteza<\/h2>\n\n\n\n<p>A exist\u00eancia de um parque n\u00e3o significa que tudo foi feito corretamente. O aumento da quantidade n\u00e3o traz, por si s\u00f3, mais justi\u00e7a. \u00c0s vezes, quanto mais aumenta o n\u00famero, mais o conte\u00fado se padroniza. O mesmo brinquedo, a mesma cor, o mesmo pl\u00e1stico\u2026 Quase d\u00e1 vontade de dizer que, nesse arranjo, as pr\u00f3prias crian\u00e7as tamb\u00e9m deveriam sair de uma f\u00e1brica&#8230; Crian\u00e7as copiadas umas das outras&#8230; Como se em cada bairro se vivesse a mesma inf\u00e2ncia. Quando, na verdade, brincar \u00e9 a forma como a crian\u00e7a recria o mundo na sua pr\u00f3pria linguagem. Ela transforma um graveto em espada, conta pedras como \u201cdinheiro\u201d, declara uma ladeira uma \u201cmontanha\u201d, chama um arbusto de \u201cfloresta\u201d. A criatividade precisa de um pouco de incerteza. Precisa de um pouco de vazio. Precisa de uma flexibilidade em que ela possa montar o pr\u00f3prio roteiro. Mas, quando constru\u00edmos \u201cespa\u00e7os de brincar\u201d para as crian\u00e7as, muitas vezes tamb\u00e9m impomos a elas o \u201croteiro da brincadeira\u201d. Escorrega aqui, balan\u00e7a ali, gira aqui, desce ali&#8230; E acaba. A brincadeira acaba. A crian\u00e7a n\u00e3o acaba, mas a brincadeira acaba.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel falar disso como uma quest\u00e3o de \u201cdesign\u201d. Sim, \u00e9 uma quest\u00e3o de design. Mas, no fundo, a quest\u00e3o principal diz respeito ao lugar onde o nosso cora\u00e7\u00e3o e a nossa mente se colocam dentro da cidade. Para quem estamos construindo a cidade? Para o carro ou para a pessoa? E, quando dizemos pessoa, estamos incluindo a crian\u00e7a, que \u00e9 talvez a forma mais fr\u00e1gil do humano? Como a crian\u00e7a participa da cidade? Como a crian\u00e7a l\u00ea a cidade? Uma cidade feita \u00e0 altura dos olhos do adulto se transforma, no mundo da crian\u00e7a, numa estranheza gigantesca. <strong><mark style=\"background-color:#fcb900\" class=\"has-inline-color\">A cal\u00e7ada parece alta demais, a velocidade assusta, o barulho sufoca, a multid\u00e3o esmaga.<\/mark><\/strong> A crian\u00e7a vira uma visitante da cidade. E toda visita tem um tempo limitado. Em algum momento, a sensa\u00e7\u00e3o de \u201ccasa\u201d desaparece. E, ent\u00e3o, a rua deixa de ser a rua da crian\u00e7a; passa a ser apenas uma linha de passagem.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-border-color has-pale-cyan-blue-border-color\" style=\"border-width:6px;border-top-left-radius:0px;border-top-right-radius:0px;border-bottom-left-radius:0px;border-bottom-right-radius:0px\"><blockquote><p>O mesmo brinquedo, a mesma cor, o mesmo pl\u00e1stico\u2026 Quase d\u00e1 vontade de dizer que, nesse arranjo, as pr\u00f3prias crian\u00e7as tamb\u00e9m deveriam sair de uma f\u00e1brica&#8230; Crian\u00e7as copiadas umas das outras&#8230; Como se em cada bairro se vivesse a mesma inf\u00e2ncia. Quando, na verdade, brincar \u00e9 a forma como a crian\u00e7a recria o mundo na sua pr\u00f3pria linguagem.<\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>Perdemos as ruas. E, \u00e0 medida que perdemos as ruas, perdemos tamb\u00e9m o brincar. Foi por isso que nos refugiamos nos parques infantis. Colocamos o parque no lugar da rua. Quando, na verdade, o parque era outra coisa; fazia sentido junto com a rua. Ir ao parque era um ritual; algo acontecia no caminho. Agora, o parque j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um destino; \u00e9 um remendo. Um lugar para onde levamos a crian\u00e7a \u201cpara ela sair um pouco\u201d. No inverno, j\u00e1 quase n\u00e3o conseguimos lev\u00e1-la. Na chuva, tamb\u00e9m n\u00e3o. \u00c0 noite, tamb\u00e9m n\u00e3o. Como se a crian\u00e7a fosse, na cidade, um ser cuja exist\u00eancia se restringe conforme as esta\u00e7\u00f5es. Quando, na verdade, a esta\u00e7\u00e3o do ano \u00e9, para a crian\u00e7a, um campo de aprendizagem: o som do vento, o cheiro da flor, a textura da folha, o calor do sol. N\u00f3s tamb\u00e9m trouxemos as esta\u00e7\u00f5es para dentro de casa. Entregamos a rela\u00e7\u00e3o que a crian\u00e7a poderia ter com a natureza \u00e0 luz das telas. E depois reclamamos, dizendo: \u201cessa nova gera\u00e7\u00e3o \u00e9 muito digital\u201d. Fomos n\u00f3s que demos o digital. Fomos n\u00f3s que tiramos a terra.<\/p>\n\n\n\n<p>Defender o direito da crian\u00e7a na cidade \u00e9, na verdade, defender um \u201cdireito ao lugar\u201d. O direito de a crian\u00e7a pertencer \u00e0 cidade\u2026 E isso n\u00e3o termina com a simples constru\u00e7\u00e3o de um parque. Ruas seguras por onde ela possa caminhar, trajetos em que possa andar de bicicleta, a possibilidade de ir sozinha \u00e0 escola, a coragem de bater na porta de um amigo, uma pequena \u00e1rea de \u201cliberdade espacial\u201d no bairro\u2026 Se isso n\u00e3o existe, o parque se torna apenas um consolo. E, se o parque existe, mas o seu conte\u00fado \u00e9 mon\u00f3tono e sufoca a criatividade, ainda assim ele n\u00e3o basta. Porque a crian\u00e7a n\u00e3o est\u00e1 apenas gastando energia; ela tamb\u00e9m est\u00e1 construindo sentido. O brincar \u00e9 tanto um movimento corporal quanto uma forma de pensar.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando dizemos que os espa\u00e7os de brincar atuais matam a criatividade, alguns acham exagero. \u201cAh, mas escorregador \u00e9 escorregador\u201d, dizem. N\u00e3o, escorregador n\u00e3o \u00e9 apenas escorregador. O escorregador pode ser um objeto; mas a brincadeira n\u00e3o \u00e9 o objeto em si. A brincadeira \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o constru\u00edda com esse objeto. Se voc\u00ea reduz essa rela\u00e7\u00e3o a um \u00fanico molde, estreita tamb\u00e9m a capacidade da crian\u00e7a de imaginar. <strong><mark style=\"background-color:#8ed1fc\" class=\"has-inline-color has-black-color\">Em espa\u00e7os onde tudo j\u00e1 foi previamente definido, a crian\u00e7a vira \u201cusu\u00e1ria\u201d; n\u00e3o consegue ser \u201cfundadora\u201d. E, se n\u00e3o consegue ser fundadora, tamb\u00e9m n\u00e3o consegue s\u00ea-lo na cidade. N\u00e3o consegue se apropriar dela. N\u00e3o consegue negociar com ela. <\/mark><\/strong>N\u00e3o consegue imaginar que um lugar possa se transformar de acordo com ela. Quando, na verdade, aquilo que chamamos de cidade \u00e9 exatamente o produto dessa negocia\u00e7\u00e3o: a conviv\u00eancia entre necessidades diferentes, velocidades diferentes, idades diferentes.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<p>Talvez a quest\u00e3o mais pesada seja esta: n\u00f3s n\u00e3o colocamos a crian\u00e7a no centro do planejamento urbano; transformamos a crian\u00e7a numa pe\u00e7a \u201clembrada depois\u201d. E depois penduramos cartazes com a frase \u201ccidade amiga da crian\u00e7a\u201d. Cidade amiga da crian\u00e7a n\u00e3o se faz s\u00f3 com s\u00edmbolos. Cidade amiga da crian\u00e7a aparece na linguagem das decis\u00f5es. Aparece nas linhas do or\u00e7amento. Aparece nas prioridades do plano urbano. Aparece na largura de uma cal\u00e7ada, na posi\u00e7\u00e3o de uma faixa de pedestres, na aplicabilidade de um limite de velocidade. Cidade amiga da crian\u00e7a permite que a crian\u00e7a erre; porque a crian\u00e7a aprende errando. N\u00f3s, por\u00e9m, para zerar o erro, trancamos a crian\u00e7a dentro de casa. A\u00ed o erro zera, sim; mas a aprendizagem tamb\u00e9m zera.<\/p>\n\n\n\n<p>Imaginamos o que \u00e9 bom. Uma natureza bonita, um bom ar, um ambiente limpo e gente\u2026 Mas ficamos s\u00f3 imaginando. Esse talvez seja o ponto que mais me d\u00f3i. N\u00e3o chamamos aquilo que imaginamos de \u201cdireito\u201d. N\u00e3o chamamos de \u201creivindica\u00e7\u00e3o\u201d. N\u00e3o chamamos de \u201cluta\u201d. Como se aquilo que \u00e9 bom fosse chegar sozinho. Mas a cidade n\u00e3o melhora sozinha. A cidade se inclina para o lado de quem \u00e9 mais forte. <strong><mark style=\"background-color:#7bdcb5\" class=\"has-inline-color\">A crian\u00e7a \u00e9 fraca. A crian\u00e7a n\u00e3o vota. A crian\u00e7a n\u00e3o gera renda fundi\u00e1ria. A crian\u00e7a n\u00e3o aumenta o valor de um terreno; para alguns, ela at\u00e9 produz \u201cbarulho\u201d. Por isso, defender o direito da crian\u00e7a \u00e9 tamb\u00e9m falar contra o \u201cpoder\u201d. \u00c9 incomodar um pouco. \u00c9 conseguir dizer: \u201cn\u00e3o precisa continuar assim s\u00f3 porque sempre foi assim\u201d.<\/mark><\/strong><\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"1441\" height=\"2560\" src=\"https:\/\/www.peyzax.com\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/IMG_20240409_122835_168-1-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-71628\" title=\"\"><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Figura 2. <\/strong>Crian\u00e7as socializando nos degraus do parque infantil &#8211; Erzurum (9 de abril de 2024)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Eu, Mehmet Emin Da\u015f, considero que essa quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas um debate est\u00e9tico. A arquitetura paisag\u00edstica n\u00e3o \u00e9 apenas plantar \u00e1rvores; a arquitetura paisag\u00edstica tamb\u00e9m deveria ser representante da justi\u00e7a espacial que organiza a vida. <strong>O direito da crian\u00e7a na cidade deveria ser uma das quest\u00f5es mais fundamentais da paisagem. Porque a paisagem constr\u00f3i o que \u00e9 p\u00fablico; e o que \u00e9 p\u00fablico \u00e9 o lugar onde a crian\u00e7a se vincula ao futuro. Se a crian\u00e7a se torna invis\u00edvel no espa\u00e7o p\u00fablico, amanh\u00e3 tamb\u00e9m n\u00e3o surgir\u00e1 um adulto capaz de defender o que \u00e9 p\u00fablico. Uma sociedade que estreitou a inf\u00e2ncia tamb\u00e9m estreita o pr\u00f3prio amanh\u00e3.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"1300\" height=\"607\" src=\"https:\/\/www.peyzax.com\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/20240310_132012-1-scaled.jpg\" alt=\"Uma \u00e1rea de brincadeira infantil em Aziziye\" class=\"wp-image-71632\" title=\"\"><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Figura 3. <\/strong>Uma \u00e1rea de brincadeira infantil em Aziziye &#8211; Erzurum (10 de mar\u00e7o de 2024)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, o que vamos fazer? Vamos falar de novo apenas da quantidade de parques? Vamos falar de novo s\u00f3 dos metros quadrados? Claro que precisamos medir; aquilo que n\u00e3o medimos n\u00e3o pode ser gerido. Mas <strong><mark style=\"background-color:#cf2e2e\" class=\"has-inline-color has-white-color\">al\u00e9m da medida, tamb\u00e9m precisamos de uma escala de consci\u00eancia.<\/mark><\/strong> Em cada bairro, uma \u00e1rea verde qualificada que a crian\u00e7a consiga alcan\u00e7ar em cinco minutos\u2026 Fa\u00e7o quest\u00e3o dessa palavra: \u201cqualificada\u201d. Qualidade significa sombra, seguran\u00e7a, manuten\u00e7\u00e3o, usabilidade sazonal, variedade de materiais, presen\u00e7a de elementos naturais, possibilidade de brincadeira livre, contato com \u00e1gua e terra, manejo pedag\u00f3gico de pequenos riscos\u2026 Qualidade significa a possibilidade de a crian\u00e7a se constituir. Num espa\u00e7o de brincar, n\u00e3o deveriam existir apenas brinquedos, mas tamb\u00e9m elementos que produzam cen\u00e1rios: materiais soltos (como pedra, galho, pinha), topografia, pequenas eleva\u00e7\u00f5es, cantos de esconderijo, textura vegetal, superf\u00edcies que se transformam conforme a esta\u00e7\u00e3o. Espa\u00e7os excessivamente est\u00e9reis, excessivamente lisos, excessivamente \u201cdisciplinados\u201d n\u00e3o tornam a crian\u00e7a mais segura; tornam a crian\u00e7a mais fr\u00e1gil.<\/p>\n\n\n\n<p>Aumentar \u00e1reas verdes tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de \u201cn\u00famero de \u00e1rvores\u201d. As \u00e1reas verdes deveriam ser pensadas como uma rede. Os parques n\u00e3o deveriam ser ilhas, mas corredores de vida conectados entre si. A crian\u00e7a deveria conseguir passar de um espa\u00e7o ao outro caminhando.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe tamb\u00e9m a linguagem dos espa\u00e7os de brincar\u2026 Muitas vezes damos \u00e0s crian\u00e7as brinquedos coloridos, mas oferecemos a elas, no plano do pensamento, um mundo cinza. O espa\u00e7o de brincar deveria convocar a imagina\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a; n\u00e3o deveria dizer a ela: \u201caqui voc\u00ea s\u00f3 faz isso\u201d. O desenho deveria aumentar as perguntas da crian\u00e7a. \u201cO que \u00e9 isso?\u201d, \u201cPara onde isso vai?\u201d, \u201cComo eu uso isso?\u201d, \u201cO que acontece se eu virar isso ao contr\u00e1rio?\u201d Essas perguntas s\u00e3o as primeiras li\u00e7\u00f5es de alfabetiza\u00e7\u00e3o urbana na mente da crian\u00e7a. E n\u00f3s tiramos essa alfabetiza\u00e7\u00e3o urbana das m\u00e3os da crian\u00e7a logo no come\u00e7o (ver Figura 4).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1300\" height=\"730\" src=\"https:\/\/www.peyzax.com\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/DSC00198-scaled.jpg\" alt=\"Crian\u00e7as brincando com \u00e1gua no Parque Tav\u015fanl\u0131\" class=\"wp-image-71638\" title=\"\"><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Figura 4.<\/strong> In\u00edcio &#8211; Crian\u00e7as brincando com \u00e1gua no Parque Tav\u015fanl\u0131 &#8211; Erzurum (23 de julho de 2014)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2560\" height=\"1438\" src=\"https:\/\/www.peyzax.com\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/DSC00203-scaled.jpg\" alt=\"Crian\u00e7as brincando com \u00e1gua no Parque Tav\u015fanl\u0131\" class=\"wp-image-71636\" title=\"\"><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Figura 5.<\/strong> Desenvolvimento &#8211; Crian\u00e7as brincando com \u00e1gua no Parque Tav\u015fanl\u0131 &#8211; Erzurum (23 de julho de 2014)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2560\" height=\"1438\" src=\"https:\/\/www.peyzax.com\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/IMG_4937-scaled.jpg\" alt=\"Crian\u00e7as brincando com \u00e1gua no Parque Tav\u015fanl\u0131\" class=\"wp-image-71634\" title=\"\"><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Figura 6.<\/strong> Resultado &#8211; Crian\u00e7as brincando com \u00e1gua no Parque Tav\u015fanl\u0131 &#8211; Erzurum (23 de julho de 2014)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Talvez o come\u00e7o mais simples e mais eficaz seja este: escutar a crian\u00e7a. Aprender com as crian\u00e7as o que \u00e9 brincar. Parar de dizer, com uma raz\u00e3o adulta, \u201cbrincar \u00e9 isso\u201d. Experimentar uma rua de brincar no bairro. Reduzir a velocidade do tr\u00e1fego em certos hor\u00e1rios da semana. Reorganizar uma rua de acordo com o corpo e a imagina\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. O brincar n\u00e3o deve ficar aprisionado ao parque. O brincar deve voltar para a rua. Porque a rua \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o da cidade. Uma cidade sem cora\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas uma ordem de concreto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s vezes eu penso: n\u00f3s imaginamos aquilo que \u00e9 bom, n\u00e3o \u00e9? Na verdade, aquilo que \u00e9 bom talvez seja algo de que nos lembramos. J\u00e1 existiu antes. Existia outono, existia ver\u00e3o, existia laranja. Os joelhos das crian\u00e7as estavam ralados, mas os olhos brilhavam. Agora os joelhos est\u00e3o limpos, mas os olhos est\u00e3o cansados. <strong>Erramos em algum lugar.<\/strong> Ainda d\u00e1 para consertar? Talvez. Mas, para isso, primeiro precisamos formular com honestidade uma frase: fomos n\u00f3s que estreitamos, com as nossas pr\u00f3prias m\u00e3os, o direito das crian\u00e7as na cidade. E aquilo que estreitamos, n\u00f3s mesmos teremos de alargar de novo. Ningu\u00e9m far\u00e1 isso por n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Como p\u00e3o bom\u2026 cidade boa tamb\u00e9m exige trabalho. Cidade boa \u00e9 um futuro conquistado com esfor\u00e7o digno. Uma cidade constru\u00edda para as crian\u00e7as n\u00e3o \u00e9 boa apenas para as crian\u00e7as; \u00e9 boa para todos. Porque um tr\u00e2nsito desacelerado para a crian\u00e7a \u00e9 tamb\u00e9m mais seguro para a pessoa idosa. A sombra ampliada para a crian\u00e7a tamb\u00e9m refresca o adulto. O verde multiplicado para a crian\u00e7a \u00e9 o respiro de todos. Defender o direito da crian\u00e7a na cidade \u00e9, no fundo, defender o direito da pr\u00f3pria vida.<\/p>\n\n\n\n<p>E eu n\u00e3o quero deixar esse direito para \u201cum dia\u201d. Porque a inf\u00e2ncia n\u00e3o espera. A inf\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 adi\u00e1vel. A inf\u00e2ncia \u00e9 vivida hoje. Se ela nos \u00e9 tirada hoje, n\u00e3o volta amanh\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>(As imagens foram fotografadas pelo autor.)<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos entre blocos imensos de concreto. 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