O brincar perdido entre o concreto
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O brincar perdido entre o concreto

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Estamos entre blocos imensos de concreto. Entre fachadas altas, brilhantes, lisas… Às vezes, até a voz das crianças se perde sem nem chegar a ecoar; porque já não existe vazio suficiente para carregar esse eco. Houve um tempo em que pensávamos que aquilo que chamávamos de “cidade” era a rua, e que aquilo que chamávamos de rua era a própria vida. Agora, a cidade parece ser apenas um corredor por onde passamos; um esquema de circulação conectado a estacionamentos fechados, elevadores e portões de segurança. Onde ficam as crianças nesse esquema? Na ponta do mapa, na margem, em algum canto “considerado adequado”… E também, claro, nas placas: “parque infantil”. Como falamos isso com facilidade. Parque. Brincadeira. Criança. Três palavras e a consciência parece acalmada.

Quase não nos restou verde. E, se restou, sobrou um tantinho no canto do olhar. Se restou, ficou num vaso diante da janela. Às vezes ficou na maquiagem do paisagismo de um condomínio: duas faixas de grama, três árvores pequenas, no meio uma oliveira “nobre”… Um arranjo que parece “bem cuidado”, mas que, ao toque, dá quase uma sensação de plástico. A possibilidade de a criança tocar a terra, conhecer a lama, entortar um galho sem quebrá-lo, sentir o peso das pedras na mão, parar à beira de um buraco e dizer “se encher de água, isso vira um lago”… Tudo isso virou luxo urbano. E aquilo que chamo de luxo é, na verdade, a condição mais básica do humano: tocar, descobrir, experimentar, cair, levantar. Para a criança, brincar é justamente isso. Nós, porém, esterilizamos a brincadeira. Embalamos a brincadeira. Entregamos a brincadeira como se fosse um produto com certificado de garantia (ver Figura 1).

23 de março de 2024 - Área de brincadeira infantil no inverno / Parque Muhsin Yazıcıoğlu - Erzurum
Figura 1. Área de brincadeira infantil no inverno – Parque Muhsin Yazıcıoğlu / Erzurum (23 de março de 2024)

Pior ainda: à medida que reduzimos as áreas verdes, estreitamos também o brincar. As cidades cresceram, a infância encolheu. Eu poderia dizer essa frase como se fosse de um poeta, mas a questão não é poesia; a questão é uma escolha que repetimos todos os dias. Projetos enormes, avenidas enormes, cruzamentos enormes. Projetos “loucos”, como se todos nós tivéssemos enlouquecido no frenesi do capitalismo… O lugar reservado à criança, por sua vez, costuma ser o que sobra da cidade. Encontra-se um vazio no plano; colocam-se ali dois balanços, um escorregador e um piso colorido… Depois dizem: “fizemos isso para as crianças”. E vendem isso como projeto de prestígio. O direito da criança vale apenas o que sobra do nosso conforto? Enquanto os metros quadrados mais caros da cidade são destinados aos carros, aos outdoors, às vitrines, o espaço que cabe às crianças costuma ser um lugar sem sombra, sem proteção contra o vento, que congela no inverno e castiga no verão.

A criatividade precisa de incerteza

A existência de um parque não significa que tudo foi feito corretamente. O aumento da quantidade não traz, por si só, mais justiça. Às vezes, quanto mais aumenta o número, mais o conteúdo se padroniza. O mesmo brinquedo, a mesma cor, o mesmo plástico… Quase dá vontade de dizer que, nesse arranjo, as próprias crianças também deveriam sair de uma fábrica… Crianças copiadas umas das outras… Como se em cada bairro se vivesse a mesma infância. Quando, na verdade, brincar é a forma como a criança recria o mundo na sua própria linguagem. Ela transforma um graveto em espada, conta pedras como “dinheiro”, declara uma ladeira uma “montanha”, chama um arbusto de “floresta”. A criatividade precisa de um pouco de incerteza. Precisa de um pouco de vazio. Precisa de uma flexibilidade em que ela possa montar o próprio roteiro. Mas, quando construímos “espaços de brincar” para as crianças, muitas vezes também impomos a elas o “roteiro da brincadeira”. Escorrega aqui, balança ali, gira aqui, desce ali… E acaba. A brincadeira acaba. A criança não acaba, mas a brincadeira acaba.

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É possível falar disso como uma questão de “design”. Sim, é uma questão de design. Mas, no fundo, a questão principal diz respeito ao lugar onde o nosso coração e a nossa mente se colocam dentro da cidade. Para quem estamos construindo a cidade? Para o carro ou para a pessoa? E, quando dizemos pessoa, estamos incluindo a criança, que é talvez a forma mais frágil do humano? Como a criança participa da cidade? Como a criança lê a cidade? Uma cidade feita à altura dos olhos do adulto se transforma, no mundo da criança, numa estranheza gigantesca. A calçada parece alta demais, a velocidade assusta, o barulho sufoca, a multidão esmaga. A criança vira uma visitante da cidade. E toda visita tem um tempo limitado. Em algum momento, a sensação de “casa” desaparece. E, então, a rua deixa de ser a rua da criança; passa a ser apenas uma linha de passagem.

O mesmo brinquedo, a mesma cor, o mesmo plástico… Quase dá vontade de dizer que, nesse arranjo, as próprias crianças também deveriam sair de uma fábrica… Crianças copiadas umas das outras… Como se em cada bairro se vivesse a mesma infância. Quando, na verdade, brincar é a forma como a criança recria o mundo na sua própria linguagem.

Perdemos as ruas. E, à medida que perdemos as ruas, perdemos também o brincar. Foi por isso que nos refugiamos nos parques infantis. Colocamos o parque no lugar da rua. Quando, na verdade, o parque era outra coisa; fazia sentido junto com a rua. Ir ao parque era um ritual; algo acontecia no caminho. Agora, o parque já não é um destino; é um remendo. Um lugar para onde levamos a criança “para ela sair um pouco”. No inverno, já quase não conseguimos levá-la. Na chuva, também não. À noite, também não. Como se a criança fosse, na cidade, um ser cuja existência se restringe conforme as estações. Quando, na verdade, a estação do ano é, para a criança, um campo de aprendizagem: o som do vento, o cheiro da flor, a textura da folha, o calor do sol. Nós também trouxemos as estações para dentro de casa. Entregamos a relação que a criança poderia ter com a natureza à luz das telas. E depois reclamamos, dizendo: “essa nova geração é muito digital”. Fomos nós que demos o digital. Fomos nós que tiramos a terra.

Defender o direito da criança na cidade é, na verdade, defender um “direito ao lugar”. O direito de a criança pertencer à cidade… E isso não termina com a simples construção de um parque. Ruas seguras por onde ela possa caminhar, trajetos em que possa andar de bicicleta, a possibilidade de ir sozinha à escola, a coragem de bater na porta de um amigo, uma pequena área de “liberdade espacial” no bairro… Se isso não existe, o parque se torna apenas um consolo. E, se o parque existe, mas o seu conteúdo é monótono e sufoca a criatividade, ainda assim ele não basta. Porque a criança não está apenas gastando energia; ela também está construindo sentido. O brincar é tanto um movimento corporal quanto uma forma de pensar.

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Quando dizemos que os espaços de brincar atuais matam a criatividade, alguns acham exagero. “Ah, mas escorregador é escorregador”, dizem. Não, escorregador não é apenas escorregador. O escorregador pode ser um objeto; mas a brincadeira não é o objeto em si. A brincadeira é a relação construída com esse objeto. Se você reduz essa relação a um único molde, estreita também a capacidade da criança de imaginar. Em espaços onde tudo já foi previamente definido, a criança vira “usuária”; não consegue ser “fundadora”. E, se não consegue ser fundadora, também não consegue sê-lo na cidade. Não consegue se apropriar dela. Não consegue negociar com ela. Não consegue imaginar que um lugar possa se transformar de acordo com ela. Quando, na verdade, aquilo que chamamos de cidade é exatamente o produto dessa negociação: a convivência entre necessidades diferentes, velocidades diferentes, idades diferentes.

Talvez a questão mais pesada seja esta: nós não colocamos a criança no centro do planejamento urbano; transformamos a criança numa peça “lembrada depois”. E depois penduramos cartazes com a frase “cidade amiga da criança”. Cidade amiga da criança não se faz só com símbolos. Cidade amiga da criança aparece na linguagem das decisões. Aparece nas linhas do orçamento. Aparece nas prioridades do plano urbano. Aparece na largura de uma calçada, na posição de uma faixa de pedestres, na aplicabilidade de um limite de velocidade. Cidade amiga da criança permite que a criança erre; porque a criança aprende errando. Nós, porém, para zerar o erro, trancamos a criança dentro de casa. Aí o erro zera, sim; mas a aprendizagem também zera.

Imaginamos o que é bom. Uma natureza bonita, um bom ar, um ambiente limpo e gente… Mas ficamos só imaginando. Esse talvez seja o ponto que mais me dói. Não chamamos aquilo que imaginamos de “direito”. Não chamamos de “reivindicação”. Não chamamos de “luta”. Como se aquilo que é bom fosse chegar sozinho. Mas a cidade não melhora sozinha. A cidade se inclina para o lado de quem é mais forte. A criança é fraca. A criança não vota. A criança não gera renda fundiária. A criança não aumenta o valor de um terreno; para alguns, ela até produz “barulho”. Por isso, defender o direito da criança é também falar contra o “poder”. É incomodar um pouco. É conseguir dizer: “não precisa continuar assim só porque sempre foi assim”.

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Figura 2. Crianças socializando nos degraus do parque infantil – Erzurum (9 de abril de 2024)

Eu, Mehmet Emin Daş, considero que essa questão não é apenas um debate estético. A arquitetura paisagística não é apenas plantar árvores; a arquitetura paisagística também deveria ser representante da justiça espacial que organiza a vida. O direito da criança na cidade deveria ser uma das questões mais fundamentais da paisagem. Porque a paisagem constrói o que é público; e o que é público é o lugar onde a criança se vincula ao futuro. Se a criança se torna invisível no espaço público, amanhã também não surgirá um adulto capaz de defender o que é público. Uma sociedade que estreitou a infância também estreita o próprio amanhã.

Uma área de brincadeira infantil em Aziziye
Figura 3. Uma área de brincadeira infantil em Aziziye – Erzurum (10 de março de 2024)

Então, o que vamos fazer? Vamos falar de novo apenas da quantidade de parques? Vamos falar de novo só dos metros quadrados? Claro que precisamos medir; aquilo que não medimos não pode ser gerido. Mas além da medida, também precisamos de uma escala de consciência. Em cada bairro, uma área verde qualificada que a criança consiga alcançar em cinco minutos… Faço questão dessa palavra: “qualificada”. Qualidade significa sombra, segurança, manutenção, usabilidade sazonal, variedade de materiais, presença de elementos naturais, possibilidade de brincadeira livre, contato com água e terra, manejo pedagógico de pequenos riscos… Qualidade significa a possibilidade de a criança se constituir. Num espaço de brincar, não deveriam existir apenas brinquedos, mas também elementos que produzam cenários: materiais soltos (como pedra, galho, pinha), topografia, pequenas elevações, cantos de esconderijo, textura vegetal, superfícies que se transformam conforme a estação. Espaços excessivamente estéreis, excessivamente lisos, excessivamente “disciplinados” não tornam a criança mais segura; tornam a criança mais frágil.

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Aumentar áreas verdes também não é apenas uma questão de “número de árvores”. As áreas verdes deveriam ser pensadas como uma rede. Os parques não deveriam ser ilhas, mas corredores de vida conectados entre si. A criança deveria conseguir passar de um espaço ao outro caminhando.

Existe também a linguagem dos espaços de brincar… Muitas vezes damos às crianças brinquedos coloridos, mas oferecemos a elas, no plano do pensamento, um mundo cinza. O espaço de brincar deveria convocar a imaginação da criança; não deveria dizer a ela: “aqui você só faz isso”. O desenho deveria aumentar as perguntas da criança. “O que é isso?”, “Para onde isso vai?”, “Como eu uso isso?”, “O que acontece se eu virar isso ao contrário?” Essas perguntas são as primeiras lições de alfabetização urbana na mente da criança. E nós tiramos essa alfabetização urbana das mãos da criança logo no começo (ver Figura 4).

Crianças brincando com água no Parque Tavşanlı
Figura 4. Início – Crianças brincando com água no Parque Tavşanlı – Erzurum (23 de julho de 2014)
Crianças brincando com água no Parque Tavşanlı
Figura 5. Desenvolvimento – Crianças brincando com água no Parque Tavşanlı – Erzurum (23 de julho de 2014)
Crianças brincando com água no Parque Tavşanlı
Figura 6. Resultado – Crianças brincando com água no Parque Tavşanlı – Erzurum (23 de julho de 2014)

Talvez o começo mais simples e mais eficaz seja este: escutar a criança. Aprender com as crianças o que é brincar. Parar de dizer, com uma razão adulta, “brincar é isso”. Experimentar uma rua de brincar no bairro. Reduzir a velocidade do tráfego em certos horários da semana. Reorganizar uma rua de acordo com o corpo e a imaginação das crianças. O brincar não deve ficar aprisionado ao parque. O brincar deve voltar para a rua. Porque a rua é o coração da cidade. Uma cidade sem coração é apenas uma ordem de concreto.

Às vezes eu penso: nós imaginamos aquilo que é bom, não é? Na verdade, aquilo que é bom talvez seja algo de que nos lembramos. Já existiu antes. Existia outono, existia verão, existia laranja. Os joelhos das crianças estavam ralados, mas os olhos brilhavam. Agora os joelhos estão limpos, mas os olhos estão cansados. Erramos em algum lugar. Ainda dá para consertar? Talvez. Mas, para isso, primeiro precisamos formular com honestidade uma frase: fomos nós que estreitamos, com as nossas próprias mãos, o direito das crianças na cidade. E aquilo que estreitamos, nós mesmos teremos de alargar de novo. Ninguém fará isso por nós.

Como pão bom… cidade boa também exige trabalho. Cidade boa é um futuro conquistado com esforço digno. Uma cidade construída para as crianças não é boa apenas para as crianças; é boa para todos. Porque um trânsito desacelerado para a criança é também mais seguro para a pessoa idosa. A sombra ampliada para a criança também refresca o adulto. O verde multiplicado para a criança é o respiro de todos. Defender o direito da criança na cidade é, no fundo, defender o direito da própria vida.

E eu não quero deixar esse direito para “um dia”. Porque a infância não espera. A infância não é adiável. A infância é vivida hoje. Se ela nos é tirada hoje, não volta amanhã.

(As imagens foram fotografadas pelo autor.)

Peyzax'ın kurucu ve idarecisi. KARSUMA kitabının yazarı (çok yakında).

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